PGE pede arquivamento de denúncia contra Tarcísio por suposto abuso de poder político
Procuradoria avalia que não há elementos suficientes para caracterizar abuso de poder político em episódio envolvendo o fechamento de acesso ao Metrô durante ato de campanha de Lula na Avenida Paulista.
Publicado em 28 de outubro de 2026, 10:22 — Em São Paulo

A Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) se manifestou pelo arquivamento da denúncia que acusa o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), de possível abuso de poder político em um episódio relacionado a um ato de campanha do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), realizado na Avenida Paulista, em 11 de setembro.
A representação foi apresentada pelo deputado estadual Emídio de Souza (PT) e pelo advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador da campanha de Lula em São Paulo. Os denunciantes questionaram o fechamento do acesso à estação Trianon-Masp do Metrô durante a dispersão dos participantes da manifestação. Segundo eles, a medida teria provocado tumulto e desordem, levantando suspeitas sobre a condução da operação em meio ao cenário eleitoral.
A justificativa apresentada pelo Metrô, no entanto, é de que o bloqueio de acessos faz parte dos procedimentos de segurança adotados em eventos que reúnem grandes multidões, a exemplo das comemorações de Réveillon. Para a PGE, também não foram apresentados elementos capazes de estabelecer uma relação entre a decisão operacional e os interesses da campanha bolsonarista.
Na ocasião, enquanto Lula participava do ato na Paulista, Tarcísio estava na capital paulista para um evento ligado à campanha de Flávio Bolsonaro (PL). A coincidência de agendas, contudo, não foi considerada suficiente para sustentar a acusação de interferência eleitoral.
Na avaliação do vice-procurador-geral eleitoral, Alexandre Espinosa Bravo Barbosa, a denúncia não demonstrou circunstâncias concretas que vinculassem o fechamento da estação a uma eventual estratégia política. O parecer também destaca que a manifestação de Lula ocorreu normalmente, com a presença do então candidato e ampla cobertura pública, enquanto os transtornos apontados teriam acontecido após o encerramento do ato.
Ao fundamentar o pedido de arquivamento, o representante da PGE ressaltou que, mesmo na hipótese de ter havido falha ou excesso na operação, o episódio não apresentaria gravidade suficiente para caracterizar abuso de poder no contexto de uma eleição nacional.
A manifestação também delimita a esfera de atuação das instituições envolvidas. Conforme a peça, a apuração sobre a legalidade das ações da Polícia Militar (PM) e da Secretaria de Segurança Pública cabe ao Ministério Público de São Paulo (MPSP), responsável por avaliar eventuais irregularidades no âmbito estadual.
Entre a responsabilidade pública e a disputa política
O pedido de arquivamento evidencia um desafio recorrente em períodos eleitorais: distinguir decisões administrativas legítimas de possíveis usos políticos da estrutura pública. A simples coincidência entre uma medida operacional e um evento de campanha não comprova, por si só, a existência de abuso de poder. Ao mesmo tempo, a atuação de agentes públicos durante disputas eleitorais exige transparência, critérios objetivos e mecanismos de fiscalização capazes de afastar dúvidas sobre a imparcialidade das decisões.
O caso também levanta uma questão que ultrapassa os interesses dos grupos políticos envolvidos: como assegurar que medidas de segurança em grandes manifestações sejam adotadas com base em critérios técnicos, sem comprometer o direito de participação política e a livre circulação dos cidadãos?
O arquivamento de uma denúncia por insuficiência de elementos para caracterizar abuso eleitoral não significa, necessariamente, que toda a operação tenha sido isenta de falhas. Da mesma forma, a existência de transtornos durante a dispersão de uma manifestação não constitui prova automática de interferência política. São questões distintas, que precisam ser examinadas com base em evidências e dentro das competências de cada instituição.
Em uma democracia, a confiança nas instituições depende tanto da responsabilização diante de irregularidades comprovadas quanto da cautela para não transformar suspeitas em condenações antecipadas. O debate público, portanto, deve ir além da disputa entre governo e oposição: o ponto central é garantir que o poder público atue com transparência, que eventuais falhas sejam apuradas e que os direitos políticos da população sejam preservados independentemente de quem esteja no centro da controvérsia.




