Pastor Rodolfo Capler denuncia desativação da Igreja Alternativa após vídeo sobre fé e política viralizar
Perfil da igreja foi derrubado após conteúdo superar 70 mil pessoas nas redes; caso ocorre no mesmo dia em que Meta retirou do ar, e depois restabeleceu, perfil de série apresentada por Fábio Porchat
Publicado em 23 de setembro de 2026, 14:05 — Em São Paulo

A Meta derrubou nesta quarta-feira (23) o perfil da série de reportagens “Revelando”, apresentada por Fábio Porchat, depois que um episódio sobre relações entre o Banco Master, a Igreja Batista da Lagoinha e personagens da política ganhou grande repercussão. Segundo os responsáveis pela produção, a plataforma informou apenas que o conteúdo não seguia os padrões do Instagram, sem apontar qual regra teria sido violada. Horas depois, o perfil foi restabelecido.
O episódio havia alcançado o primeiro lugar no ranking Hype do YouTube, enquanto o teaser chegou a cerca de 6 milhões de visualizações no Instagram antes da retirada.
A situação envolvendo Porchat ocorre no mesmo dia em que outra conta relacionada a religião e política também foi retirada do Instagram: a da Igreja Alternativa, de Piracicaba, liderada pelo pastor Rodolfo Capler.
O caso começou com um vídeo da série de sermões “O Cristão e a Política”, apresentada por Capler. Em um dos trechos que mais repercutiram, o pastor questiona a aproximação de parte do segmento evangélico brasileiro com o bolsonarismo e alerta para o risco de identidades políticas e lealdades partidárias ocuparem espaço central na experiência de fé.
Segundo a igreja, o conteúdo alcançou mais de 70 mil pessoas em cerca de 48 horas. O perfil, que tinha aproximadamente 2,3 mil seguidores, também teria registrado mais de 3 mil compartilhamentos e milhares de interações.
Foi depois dessa repercussão que o perfil @igrejaalternativa foi desativado pelo Instagram. A plataforma informou à igreja que a medida estava relacionada a uma suposta violação dos Padrões da Comunidade envolvendo a “integridade da conta”. Segundo a instituição, também não teria sido disponibilizada uma nova análise.
A relação entre a repercussão do vídeo e a retirada da conta, entretanto, não foi oficialmente estabelecida pela Meta. Capler afirma acreditar que houve uma ação coordenada de grupos bolsonaristas, com denúncias em massa contra o perfil. A alegação, porém, não foi confirmada publicamente pela Meta.
A crítica do pastor, segundo ele próprio, não tem como alvo os eleitores de Jair Bolsonaro nem representa apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“
O púlpito e a comunidade de fé não podem ser transformados em palanque político, seja para a direita, para a esquerda ou para o centro, afirmou Capler.”
A posição faz parte de uma discussão que o pastor já desenvolve há anos. Em entrevistas anteriores, Capler defendeu que cristãos participem da política, mas criticou a instrumentalização da fé por interesses partidários.
A própria Igreja Alternativa, fundada em Piracicaba e liderada por Capler, tem sua atuação associada ao debate sobre fé, sociedade e temas contemporâneos. Em 2025, por exemplo, a comunidade sediou encontro do Fórum Permanente Inter-Religioso para uma Cultura de Paz e Liberdade de Crença.
O episódio abre, porém, uma segunda frente de discussão: onde termina a moderação de uma plataforma privada e começa a censura? Os dois casos ocorridos nesta quarta-feira mostram a complexidade da questão. No caso de “Revelando”, a conta foi retirada após uma publicação de grande repercussão e posteriormente restaurada. No caso da Igreja Alternativa, a conta permanece, segundo a instituição, desativada. Em ambos, as plataformas apontaram regras internas, mas os critérios específicos que levaram às decisões não foram detalhados publicamente.
Isso não permite afirmar, por si só, que houve censura. Mas permite levantar uma pergunta relevante: quando uma plataforma retira do ar conteúdos que envolvem religião, política e crítica ideológica, quão transparentes precisam ser os critérios para que o público compreenda e possa contestar a decisão?
A discussão ganha importância em um país onde religião e política estão cada vez mais presentes no debate público e onde redes sociais transformaram sermões, reportagens e declarações políticas em conteúdos capazes de alcançar milhões de pessoas.
A Igreja Alternativa afirma que continuará suas atividades presenciais e criou um novo perfil oficial, @igrejaalternativaoficial.
E há uma ironia difícil de ignorar: uma mensagem que criticava justamente a transformação da política em uma espécie de identidade absoluta acabou se tornando parte de uma nova batalha política nas redes.
Talvez esse seja o ponto mais importante dessa história. Uma igreja pode criticar a direita sem ser automaticamente de esquerda. Um cristão pode questionar o bolsonarismo sem necessariamente defender o lulismo. E alguém pode discordar profundamente de uma mensagem sem desejar que ela deixe de existir. A democracia não se fortalece quando todos pensam da mesma maneira. Ela se fortalece quando ideias diferentes conseguem disputar espaço sem que a divergência seja confundida com ameaça.




